O jantar de borregos


Decorria o mês de Junho ano de 1975, voava-se pouco e a maioria do pessoal da BA3 passava a tarde a apanhar secas de “dinamização cultural” do MFA.

Os pilotos, normalmente baldavam-se, assim como os alunos do nosso curso com o argumento de ser necessário dar aulas e briefings, no entanto essas formações eram dadas no bar da Esquadra com umas balsaminas (minis) a falar de eventos passados na guerra ou a ver uns filmes de “segurança de voo” em super 8.

Num desses dias houve um instrutor que se lembrou de que há muito tempo não se fazia um jantar no Boquilobo e seria uma boa ideia, então se fosse de borregos assados no forno do Sr Manel, acompanhados do vinho que ele tinha nas pipas do restaurante/adega ainda seria melhor.

Mas onde se podiam arranjar os borregos?

Será que alguém de entre os presentes conhecia alguém que fosse produtor de ovelhas e ainda arranjasse borregos?

Bem, lembrei-me do meu avô paterno e disse-lhe que ele negociava com ovelhas lá na nossa terra.

-Então e de que terra é você?

-Sou de Atalaia do Campo ao pé do Fundão.

-Então vamos marcar uma viagem de navegação para amanhã para Atalaia do Campo.

Bem, não cabia em mim de contente, o neto do Ti Milheiro aparecer na Atalaia logo no dia de S. João em que até havia feira lá na terra era um feito praticamente inédito excepto as passagens baixas que o primo Zezinho (Gen. Infante) lá fazia quando era novo.

Então nesse dia lá fomos até á Atalaia e aterramos no chão do meu avô perante a surpresa do pessoal que quando viu o AL III a aterrar entrou pela propriedade a dentro e deu cabo da plantação de melancias que lá estava.

Saí e entretanto, para evitar alguma situação mais perigosa, o Instrutor, Fur. Batista? Descolou com o outro aluno penso que era o O. Santos e deu-me tempo para falar com o meu avô para dizer ao que ia.
Pedi-lhe se nos arranjava 30 Kg de borregos para a semana seguinte e uns quantos pães de quilo e que telefonava ao fim de uns dias, para casa de um vizinho, para combinar a recolha. Mostrou-se apreensivo pois em fins de Junho é difícil arranjar borregos mas que ia ver se conseguia alguma coisa.

Ao fim de dois ou três dias liguei para casa do Ti Simão, que era o único que tinha telefone lá na rua a pedir que chamasse o meu avô e ao fim de uns minutos lá tive a notícia de que arranjava os borregos e só tinha que os ir buscar, pedindo me ainda para não aterrarmos na propriedade dele pois os estragos na plantação tinham sido muitos.

No dia combinado, fomos de ALII e aterramos numa clareira a beira da estrada, o meu tio Zé veio da Covilhã, a cerca de 30 km da aldeia, para ajudar ao transporte da carne e dos pães e as coisas estavam muito bem organizadas. A directora da escola primária levou os alunos para verem o helicóptero e o pessoal ficou á distancia a fazer perguntas do tipo quantos litros isto gasta aos 100 e outras do género.

Depois de tudo pronto lá fomos até ao Boquilobo e com o guincho descemos o petisco com um bilhete escrito a dizer ao Sr. Manel para assar a carne para essa noite e que eramos a volta de 30 pessoas.

Ao fim do dia lá fomos para o jantar, com o pessoal todo da Esquadra, o assado estava espectacular o vinho ali da zona de Torres Novas era muito bom e foi beber até não poder mais. Houve quem se deitasse debaixo da torneira de uma pipa dando ordem a um dos alunos para que enquanto tivesse o braço no ar, mantivesse a torneira aberta. Não sei o que aconteceu mas se não fosse alguém a ver que o braço nunca mais baixava penso que ainda hoje o homem lá estava.

A bebedeira foi valente com todas as consequências gástricas resultantes e a sala também não ficou em muito bom estado, quer de higiene quer de conservação.

Esta história quase que ficava por aqui.
Só que...
Passados uns anos valentes aí por volta de 1995, fui a casa de um amigo, numa terra próxima chamada Brogueira, comprar vinho e depois de enchermos o vasilhame, decidimos ir comer umas enguias fritas a um restaurante no Boquilobo.

Quando lá cheguei era um restaurante normal com uma sala bem arranjada e lembrei me do célebre jantar de borregos uns anos antes.

Pus-me á conversa com o dono, e perguntei-lhe se havia mais algum restaurante naquela terra. Disse que não e que a casa já existia há mais de 20 anos.

Perguntei lhe se aquele local não tinha sido em tempos uma adega onde se faziam uns petiscos.

Disse-me que sim, que já la trabalhava quase desde o início, que tinha casado com a filha do dono que entretanto falecera e fizera a remodelação da casa.

Bem não resisti e perguntei-lhe:

-Então o seu sogro era o Sr. Manel?

-Sim mas como sabe?

Não respondi e perguntei-lhe:

-Então se já cá trabalha há muitos anos, lembra-se de um jantar com pessoal da BA3 por voltas de 1975, em que assaram uns borregos que vieram trazer de helicóptero?

O homem olhou para mim com cara de surpresa e sé me disse:

-Nem me fale desses FILHOS DA PUTA !!!

-Então?

-Então? Veja lá que trouxeram um helicóptero para entregar uns borregos, aquilo parou no ar enquanto desciam a comida com um guincho. Olhe a vedação que havia aqui á volta voou com o vento que aquilo fazia. Mas isso foi o menos, á noite apanharam tal bebedeira que vomitaram a casa toda, entornaram vinho das pipas, pariram umas coisas, havia até gente a dormir no chão e até me roubaram um Zé Povinho que lá estava. Olhe no outro dia até tive que ir a Base buscar o boneco…
Mas por que é que você me pergunta isso?

-Sabe, é que eu era um dos FILHOS DA PUTA!
João Milheiro
#Penduras
[0.004/2018]

Comentários

Miguel disse…
Fui eu que levei o Zé Povinho, era lindo, e quando o Ti Manel me disse que dali não saia, nunca mais tirou de lá o olhar, mas consegui...
Belos tempos, os melhores da minha vida.
Um abraço aos Penduras.
Luis Novaes Tito disse…
Texto do João Milheiro que recorda bons tempos do nosso curso.
Este Site/blog pretende ser exactamente isto. Um ponto de encontro e um registo de memórias.
Venham mais textos destes.
Abraço