O 1313
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| Luís Tito - BA1 - 1974 - Chipmunk 1313 |
Em 2026.09.24, a propósito dos 75 anos do Chipmunk, resolvi publicar um mini-texto no Facebook ilustrado com a imagem que abaixo republico aqui.
O texto foi merecedor de mais de uma centena de likes e de mais de duas dezenas de comentários dos quais destaco estes do Carlos Sequeira (Mambo) do P3/73 por se referir aos acontecimentos do Chip 1313 que importa registar para memória.
No tratamento desta informação resolvi acrescentar outras imagens para fazer o melhor enquadramento do relatado.
Ainda sobre os 75 anos em que o Chipmunk formou pilotos da FAP deu-me para espreitar o baú de 1974 de onde saquei estas três fotos.
As duas primeiras servem para recordar as cores dos Chip de então.
A 3ª era um local de romaria na BA1.
O 1313 estava a um canto, junto ao hangar, talvez para lembrar aos alunos piloto que era importante saber aterrar.
Carlos Sequeira Mambo Quem viu cair este Chip, o 1313, e o socorreu em primeira mão fui eu.
Caiu nas Mercês, por culpa de ambos, não houve falha do aparelho mas sim dos tripulantes.
Ia eu num Land Rover da FAP para o Lumiar, acabar a última inspecção, assim como os três companheiros que sobraram do desbaste do Cabral de Sá, 4 ultramarinos de Angola que fomos os últimos a chegar para inspecção, razão pela qual nos atribuíram os últimos 4 números do curso.
Eu não o vi bater, mas deduzi pela atitude que trazia de rapada e por não ter voltado a aparecer e não havia vale para se esconder.
Insisti com o cabo condutor Pereira para voltar para trás, mas ele não queria porque estávamos numa fila enorme para fazer a passagem de nível de Rio de Mouro.
Tive que dizer ao condutor que, além de ser "sobrinho do comandante", (o que era mentira) assumia a responsabilidade se não chegássemos a tempo ao Lumiar.
Lá saiu da fila e voltámos para trás.
Ao chegar ao sítio que calculei, mandei-o parar e seguimos para a portada de uma quinta abandonada. Ao chegar próximo havia uns eucaliptos e lá estava uma asa ao alto, o motor saiu pelo corta-fogo e estava a uns 50 metros e o que restava da fuselagem estava invertida.
O aluno da academia estava a uns 10 metros em cima de uma moita, estava lúcido, mas em choque. O instrutor, 2° Sarg-Piloto Reis, que tinha feito a Guiné, estava agarrado pelos cintos de cabeça para baixo. Foi retirado por mim e pelo "Xico Escuro" e deitado ao lado da empenagem.
Ao Ilídio, que estava lívido, disse-lhe que fosse a uma das vivendas que havia do lado oposto para telefonarem aos bombeiros.
Entretanto já tinha mandado o Pereira à Base para comunicar ao oficial de dia o sucedido.
A primeira ambulância a chegar foi a dos bombeiros. Ao verem a perna do aluno aberta como um pão saído do forno, aberto à mão, tiram-no do silvado e lá foi ele.
Começaram então as dores do Sargento Reis, que pedia para lhe levantarmos as costas, depois para baixar, enfim, não tinha maneira de suportar as dores.
Tinha a coluna fraturada.
Passado um bom bocado lá apareceu a velha Dodge da segunda guerra mundial com a sirene ligada e recolheu o malogrado instrutor que naquele espaço de tempo nos contou a vida toda. Lembro-me de ter dito que tinha uma filha de 3 anos e pediu para não dizermos nada à família.
Assim acabou o 1313.
No jornal de notícias que recebíamos no bar do soldado do fim de semana vinha a seguinte notícia: “Avião da FAP despenha-se perto da Base Aérea nº 1e foi socorrido prontamente pelo Comandante da Base.
Bem, o apelido estava certo, Sequeira!
Valha-nos isso.
Dos que estivemos no local, três fomos pilotos e um, já com 50 horas de Harvard T-6, desistiu e foi por esta razão.
(resposta) Luis Novaes Tito
Não fazia a menor ideia do que contas. Estes destroços do 1313 eram um ponto de peregrinação do meu curso quando estivemos no Chip, na Granja do Marquês.
Obrigado pelo teu comentário que gostaria de transcrever para o blog dos Penduras, se tu concordares.
Grande abraço e fico à espera do assentimento.
(resposta) Carlos Sequeira Mambo
Olá, Tito.
Sim, claro que podes transcrever. Eu só vi as tuas fotos já noite dentro ou madrugada fora, podia ter posto mais coisas que se passaram, como por exemplo:
Estava a fazer inspecções para embarque para o Ultramar e cruzei-me com o Sargento-piloto Reis no Lumiar. Claro que ele não me ia reconhecer, mas eu dirigi-me a ele e perguntei-lhe como iam as coisas.
Ele ia encostado a um canadiana num andar contido. Vi-lhe uma lágrima ao canto do olho. Essa emoção lembrada marcou-me mais que o ter participado no que contei do acidente. Deu-me a mão e disse-me: que tenhas boa sorte e nunca facilites em nada, as minhas asas partiram-se quando eu já tinha arriscado tudo e julgava que estava seguro. Nunca mais o vi.
Nós íamos, os 4 ultramarinos que restaram da tosquia no Cabral de Sá como disse, (éramos 9 de cento e muitos que concorreram por Angola em Luanda).
Fui o mancebo 86 de Angola.
Lembro-me de um que era filho do governador de Luanda ,porque me voltei a encontrar com ele cá. Esse não passou nos psicotécnicos.
Eu fui o único ultramarino de 4 anos, todos os outros eram de 6.
Podia ter ido para o T-37, mas o Capitão Pil. Perestrelo, Comandante de Esquadra, quando viu a ficha disse-me que tinha que meter mais 2 anos,4 anos era curto e gastava o tempo quase todo em cursos. Os 4 anos eram muito prejuízo para a FAP.
Recusei, claro!
Se fosse hoje, fazia o "sacrifício" e metia os 2 anos.
Voei com o Cte e ele não era meigo nas manobras. Tinha pertencido a todas as Esquadrilhas acrobáticas, Apertou à moda antiga e viu que eu estava a gostar da festa, passou-me os comandos para a mão e ainda me deu um mês para pensar no caso.
Fui para os hélis porque assim ia para casa de certeza. Bastava ficar entre os primeiros. Tinham opção de escolha, assim fiz e deu certo.
Fui voar no meu Leste para as terras do fim do mundo que era o sonho de um puto da nossa idade com as minhas ideias e eu só voei por cima da minha casa e da namoradinha, já era Piloto de facto...
Aquele abraço, Pendura!
PS. O aluno cadete da academia, embora tenha ficado na tropa ,mudou de especialidade e chegou a Coronel.
E como as conversas são como as cerejas entrou outro comentador:
João Calado
Qual a data do acidente?
(ao que respondi)
Segundo a listagem de Chips referida no “Projecto Chipmunk” terá sido em 1973.08.30 (https://projectochipmunk.blogspot.com/p/dados-chipmunk.html
(e o Mambo respondeu):
nos finais de Agosto e nós começamos a voar a 3 de Setembro.
Para confirmar as conversas e as cerejas entra outro comentador:
Rui Ferreira Inácio
Eu estava na base nessa altura de 71/74 e lembro bem do acontecimento.
O 1313 já tinha caído na praia de Carcavelos e foi reparado, tenho essa ideia.
Isto já lá vai 52 anos.
ao que o Mambo respondeu:
Aí deve ter aterrado de emergência, como aconteceu a um no meu curso, nada demais uma terra lavrada e depois foram desmontada as asas e veio para a base de camião.
Da segunda vez, esta a que dei assistência, ficou destruído.
Luís Novaes Tito
#Penduras
[0.005 /2026]
O texto foi merecedor de mais de uma centena de likes e de mais de duas dezenas de comentários dos quais destaco estes do Carlos Sequeira (Mambo) do P3/73 por se referir aos acontecimentos do Chip 1313 que importa registar para memória.
No tratamento desta informação resolvi acrescentar outras imagens para fazer o melhor enquadramento do relatado.
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| BA1 - 1974 |
Ainda sobre os 75 anos em que o Chipmunk formou pilotos da FAP deu-me para espreitar o baú de 1974 de onde saquei estas três fotos.
As duas primeiras servem para recordar as cores dos Chip de então.
A 3ª era um local de romaria na BA1.
O 1313 estava a um canto, junto ao hangar, talvez para lembrar aos alunos piloto que era importante saber aterrar.
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| Carlos Sequeira (Mambo) - Maio/Junho 1975 - Leste de Angola |
Carlos Sequeira Mambo Quem viu cair este Chip, o 1313, e o socorreu em primeira mão fui eu.
Caiu nas Mercês, por culpa de ambos, não houve falha do aparelho mas sim dos tripulantes.
Ia eu num Land Rover da FAP para o Lumiar, acabar a última inspecção, assim como os três companheiros que sobraram do desbaste do Cabral de Sá, 4 ultramarinos de Angola que fomos os últimos a chegar para inspecção, razão pela qual nos atribuíram os últimos 4 números do curso.
Eu não o vi bater, mas deduzi pela atitude que trazia de rapada e por não ter voltado a aparecer e não havia vale para se esconder.
Insisti com o cabo condutor Pereira para voltar para trás, mas ele não queria porque estávamos numa fila enorme para fazer a passagem de nível de Rio de Mouro.
Tive que dizer ao condutor que, além de ser "sobrinho do comandante", (o que era mentira) assumia a responsabilidade se não chegássemos a tempo ao Lumiar.
Lá saiu da fila e voltámos para trás.
Ao chegar ao sítio que calculei, mandei-o parar e seguimos para a portada de uma quinta abandonada. Ao chegar próximo havia uns eucaliptos e lá estava uma asa ao alto, o motor saiu pelo corta-fogo e estava a uns 50 metros e o que restava da fuselagem estava invertida.
O aluno da academia estava a uns 10 metros em cima de uma moita, estava lúcido, mas em choque. O instrutor, 2° Sarg-Piloto Reis, que tinha feito a Guiné, estava agarrado pelos cintos de cabeça para baixo. Foi retirado por mim e pelo "Xico Escuro" e deitado ao lado da empenagem.
Ao Ilídio, que estava lívido, disse-lhe que fosse a uma das vivendas que havia do lado oposto para telefonarem aos bombeiros.
Entretanto já tinha mandado o Pereira à Base para comunicar ao oficial de dia o sucedido.
A primeira ambulância a chegar foi a dos bombeiros. Ao verem a perna do aluno aberta como um pão saído do forno, aberto à mão, tiram-no do silvado e lá foi ele.
Começaram então as dores do Sargento Reis, que pedia para lhe levantarmos as costas, depois para baixar, enfim, não tinha maneira de suportar as dores.
Tinha a coluna fraturada.
Passado um bom bocado lá apareceu a velha Dodge da segunda guerra mundial com a sirene ligada e recolheu o malogrado instrutor que naquele espaço de tempo nos contou a vida toda. Lembro-me de ter dito que tinha uma filha de 3 anos e pediu para não dizermos nada à família.
Assim acabou o 1313.
No jornal de notícias que recebíamos no bar do soldado do fim de semana vinha a seguinte notícia: “Avião da FAP despenha-se perto da Base Aérea nº 1e foi socorrido prontamente pelo Comandante da Base.
Bem, o apelido estava certo, Sequeira!
Valha-nos isso.
Dos que estivemos no local, três fomos pilotos e um, já com 50 horas de Harvard T-6, desistiu e foi por esta razão.
(resposta) Luis Novaes Tito
Não fazia a menor ideia do que contas. Estes destroços do 1313 eram um ponto de peregrinação do meu curso quando estivemos no Chip, na Granja do Marquês.
Obrigado pelo teu comentário que gostaria de transcrever para o blog dos Penduras, se tu concordares.
Grande abraço e fico à espera do assentimento.
(resposta) Carlos Sequeira Mambo
Olá, Tito.
Sim, claro que podes transcrever. Eu só vi as tuas fotos já noite dentro ou madrugada fora, podia ter posto mais coisas que se passaram, como por exemplo:
Estava a fazer inspecções para embarque para o Ultramar e cruzei-me com o Sargento-piloto Reis no Lumiar. Claro que ele não me ia reconhecer, mas eu dirigi-me a ele e perguntei-lhe como iam as coisas.
Ele ia encostado a um canadiana num andar contido. Vi-lhe uma lágrima ao canto do olho. Essa emoção lembrada marcou-me mais que o ter participado no que contei do acidente. Deu-me a mão e disse-me: que tenhas boa sorte e nunca facilites em nada, as minhas asas partiram-se quando eu já tinha arriscado tudo e julgava que estava seguro. Nunca mais o vi.
Nós íamos, os 4 ultramarinos que restaram da tosquia no Cabral de Sá como disse, (éramos 9 de cento e muitos que concorreram por Angola em Luanda).
Fui o mancebo 86 de Angola.
Lembro-me de um que era filho do governador de Luanda ,porque me voltei a encontrar com ele cá. Esse não passou nos psicotécnicos.
Eu fui o único ultramarino de 4 anos, todos os outros eram de 6.
Podia ter ido para o T-37, mas o Capitão Pil. Perestrelo, Comandante de Esquadra, quando viu a ficha disse-me que tinha que meter mais 2 anos,4 anos era curto e gastava o tempo quase todo em cursos. Os 4 anos eram muito prejuízo para a FAP.
Recusei, claro!
Se fosse hoje, fazia o "sacrifício" e metia os 2 anos.
Voei com o Cte e ele não era meigo nas manobras. Tinha pertencido a todas as Esquadrilhas acrobáticas, Apertou à moda antiga e viu que eu estava a gostar da festa, passou-me os comandos para a mão e ainda me deu um mês para pensar no caso.
Fui para os hélis porque assim ia para casa de certeza. Bastava ficar entre os primeiros. Tinham opção de escolha, assim fiz e deu certo.
Fui voar no meu Leste para as terras do fim do mundo que era o sonho de um puto da nossa idade com as minhas ideias e eu só voei por cima da minha casa e da namoradinha, já era Piloto de facto...
Aquele abraço, Pendura!
PS. O aluno cadete da academia, embora tenha ficado na tropa ,mudou de especialidade e chegou a Coronel.
E como as conversas são como as cerejas entrou outro comentador:
João Calado
Qual a data do acidente?
(ao que respondi)
Segundo a listagem de Chips referida no “Projecto Chipmunk” terá sido em 1973.08.30 (https://projectochipmunk.blogspot.com/p/dados-chipmunk.html
(e o Mambo respondeu):
nos finais de Agosto e nós começamos a voar a 3 de Setembro.
Para confirmar as conversas e as cerejas entra outro comentador:
Rui Ferreira Inácio
Eu estava na base nessa altura de 71/74 e lembro bem do acontecimento.
O 1313 já tinha caído na praia de Carcavelos e foi reparado, tenho essa ideia.
Isto já lá vai 52 anos.
ao que o Mambo respondeu:
Aí deve ter aterrado de emergência, como aconteceu a um no meu curso, nada demais uma terra lavrada e depois foram desmontada as asas e veio para a base de camião.
Da segunda vez, esta a que dei assistência, ficou destruído.
Luís Novaes Tito
#Penduras
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